A fome de gol
Por ROBERTO VIEIRA
No dia 5 de setembro de 1908 nascia em Pernambuco Josué de Castro.
Negro, filho de retirantes, Josué foi médico, antropólogo, político, professor e símbolo.
Antes de Josué de Castro, o Brasil só falava na fome de bola.
Mas Josué ousou falar em outra fome. Tão popular e corriqueira quando o futebol no Brasil.
A fome primordial.
Os setores mais nacionalistas ergueram suas vozes:
“Como um brasileiro pode envergonhar assim nossa pátria?”
Como se a fome e a miséria não fossem fonte maior de vergonha para terra tão rica.
E lá se foi Josué cutucando feridas, descobrindo verdades, expondo a sociedade brasileira em carne viva.
O seu clássico ‘A Geografia da Fome’ permanece intacto ao correr dos anos. Invicto. Onisciente.
Lançado em 1946 quando o Brasil ganhou o direito de sediar a Copa do Mundo de 1950, o livro é um testemunho científico sobre as mazelas que corroíam o gigante adormecido.
A fome que biografara Fausto e Jaguaré virava manchete de jornal.
Triste Brasil. Sem a fome talvez não fossemos pentacampeões de futebol. Com educação e comida na mesa, nossos jogadores talvez não corressem atrás de uma bola como quem corre atrás de um prato de feijão.
Como se fosse o último.
Presidente da Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas no período de 1952 a 1956, o Dr. Josué de Castro foi cassado na alvorada do golpe militar de 1964.
Josué de Castro que faleceu distante da sua pátria. Exilado.
Culpado por não se deitar eternamente em berço esplêndido.
Culpado por falar de um fome que não era a fome de gol...