Respirando II
Capitalismo: não há almoço grátis, exceto quando os bancos quebram
Durante as últimas décadas, o mundo foi invadido por alguns dogmas que eram dioturnamente martelados por governantes, políticos, economistas, banqueiros, jornalistas e outros mais. Uns bradavam a diminuição do Estado, um Estado mínimo, quase inexistente. Seria este novo deus, o Mercado, o condutor da humanidade, que resolveria todos os problemas, naturalmente solucionando qualquer conflito. Suas vozes apregoavam para ele todas as virtudes, um novo deus que transformava medíocres economistas em gênios da humanidade. Qualquer medida de cunho social, auxílio a pobres, benefícios em saúde, ampliação de gasto público com educação, política de socorro a indústrias enfraquecidas, reajustes de pensões e aposentadorias eram imediatamente atacados como se fossem os sangradouros a drenar os cofres públicos. Tudo era contestado com a permanente idéia de se diminuir o Estado, afastando-o. Qualquer norma de controle da atividade do Mercado, ou de empresas que prestam serviços públicos, ou que defendem os consumidores, eram vistas como agressões aos santos direitos de liberdade defendidos pelo Mercado. Os falsários que por aí pululavam esfalfavam suas declaraçoes em pareceres dos grandes bancos, em relatórios de agências de rating, como a demonstrar que este mundo ainda não era um paraíso, embora estivesse bem perto. Quando a nova crise despontou, os portavozes da banca mentiram. Apregoavam um probleminha subprime nos EUA, ou um caso isolado lá ou acolá. A bem da verdade escamoteram, mentiram. Foi preciso o Governo inglês, sem pudor, sem medo, sem qualquer vergonha, jogando no lixo todos os princípios de defesa e autonomia do santo Mercado, descaradamente, dizer que o problema é mais embaixo, isto é, sem fundo, pois todos os bancos caíam pelas tabelas e unanimemente clamavam pelo dinheiro público. Estavam quebrados e precisavam de socorro do ex-inimigo Estado. E o Estado veio socorrê-los. Os ingleses foram decididos: rodem as impressoras, imprimam dinheiro e inundem os cofres dos bancos e não os deixem morrer. É assim mesmo, o Capitalismo é eficiente, gera riqueza, mas necessita do Estado por perto para socorrê-lo e controlá-lo quando este apronta das suas. Quanto menos regras, mais trabalho para o Estado, quanto melhores foram as normas de controle, menos constantes serão as crises, e menores os gastos por elas gerados. Imagino o carão que vivem hoje economistas, jornalistas e banqueiros que ficavam amaldiçoando o Estado e hoje têm de correr às casas da moeda para pegar notas quentes, recém impressas, para socorrer seus bancos e empresas. Com essa enxurada de emissões, desvaloriza-se a moeda já sem lastro, socializam-se os prejuízos e alimenta-se o processo inflacionário. Ainda bem que as editoras não correm o risco de serem processadas pela publicação de livros de economia em favor do novo deus que tudo faria e resolveria. O povo esquece e manda pro lixo.
www.blogdocitadini.blog.uol.com.br
Escrito por Marcello Orsi às 18h51
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