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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, BOSQUE DA SAUDE, Homem, de 26 a 35 anos
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Fenômeno em preto e branco
JOSÉ GERALDO COUTO
Fenômeno em preto e branco
A chegada de Ronaldo deixa o corintiano dividido entre o desejo de ser feliz e o medo da desilusão
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RONALDO, A esfinge, nos desafia com mais um enigma. Entre tantas possibilidades (Flamengo, Manchester City, Estados Unidos, Japão, países árabes, aposentadoria), por que cargas d'água foi parar no Parque São Jorge? Sim, há uma engenhosa e ousada operação de marketing, há o dinheiro ainda virtual que viria de potenciais patrocinadores. Não sou versado em economia. A lógica das finanças me escapa, mas pode ser que dê certo. A outra explicação aventada "Ronaldo quer disputar a Copa de 2010" é nada menos que pífia. Por que ele teria, no Corinthians, mais chance de voltar à forma e ser convocado do que no Manchester City ou no Flamengo? É quase o mesmo que dizer que Robinho, com o mesmo objetivo, deveria então voltar ao Santos. Mas talvez eu, como corintiano escaldado, esteja simplesmente levantando uma série de objeções para me precaver dessa coisa terrível que é a esperança. ("Peso mais pesado/não existe não", já dizia Manuel Bandeira sobre essa palavra tão usada e abusada). Passagens melancólicas de grandes craques em declínio (como Garrincha e Edu) pelo clube deixaram os corintianos mais velhos um tanto ressabiados, com medo de ser felizes. Os mais jovens, pelo visto, não estão nem aí e embarcam alegremente no refrão "mais um louco num bando de loucos". Meu Deus, como eu os invejo. A coisa mais difícil que existe no mundo, tão difícil quanto ganhar na Mega-Sena ou descobrir a idade da Hebe Camargo, é conciliar o "otimismo da vontade e o pessimismo da razão", como queria o grande pensador comunista Antonio Gramsci. Ou caímos para um lado ou para o outro, ora mimetizando o leão animado Lippy, ora a hiena ranzinza Hardy ("Eu disse que não ia dar certo"). O certo é que, num mundo em que, como bem notou Juca Kfouri, o marketing passou a ser um fim em si, a cartolagem corintiana conseguiu um grande triunfo, criando o fato que ofuscou neste fim de ano todos os outros do mundo esportivo. Desse ponto de vista, pouco importa se Ronaldo vai fazer gols e até mesmo disputar um jogo inteiro pelo Corinthians. Se entrar em campo para dar o pontapé inicial, rodeado de crianças e paramentado com um sem-número de logomarcas, a iniciativa já terá valido a pena, rendendo frutos econômicos e políticos. Para nós, que gostamos de bom futebol e bola na rede, permanece a interrogação: seremos felizes em 2009? Ou, parafraseando o verso de Drummond, neste país (o Corinthians) é proibido sonhar? Tento pôr de lado a rabugice e me deixar embriagar um pouco pela euforia alvinegra reinante. Para isso recorro a um trecho de um belo livro, "O Filho Eterno", de Cristovão Tezza, que ganhou todos os prêmios literários do ano: "Talvez, o pai sonha, confuso, os milhões de pessoas que superlotam os estádios estejam em busca exatamente desse breve encantamento: do simples futuro, do poder de flagrar o tempo, esse vento, no momento mesmo em que ele se transforma em algo novo, numa sensação que a vida cotidiana é incapaz de dar". Vamos deixar abertas as portas do futuro.
jgcouto@uol.com.br
Escrito por Marcello Orsi às 11h56
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